O Don’t Nod, estúdio francês que criou o primeiro Life is Strange e também fez Jusant, Banishers: Ghosts of New Eden e Lost Records: Bloom & Rage, entrou com um pedido de recuperação preventiva na Justiça da França, a chamada procédure de sauvegarde. A medida foi revelada em um comunicado de resultados do primeiro semestre publicado na terça-feira (20). O pedido foi aceito pelo Tribunal de Atividades Econômicas de Paris em decisão de 19 de outubro.
A procédure de sauvegarde é um mecanismo da legislação francesa para empresas que ainda não estão inadimplentes, mas têm dificuldades que não conseguem superar sozinhas. O tribunal nomeou a SELARL Détroit, representada por Charles-Henri Carboni, como administradora judicial, e abriu um período de observação inicial de seis meses. Durante o processo, todas as dívidas anteriores à decisão ficam congeladas, enquanto a empresa tenta montar um plano de financiamento sustentável.
“A indústria de videogames continua enfrentando um ambiente excepcionalmente desafiador, marcado em particular por um acesso muito seletivo a financiamento”, afirmou Oskar Guilbert, presidente e CEO do Don’t Nod. “Nesse contexto, nossa posição de caixa atual não nos permite garantir adequadamente todas as necessidades de financiamento ligadas às nossas operações e projetos.” Segundo ele, o pedido “é uma medida proativa e de proteção”, que deve dar “o enquadramento e o tempo necessários para construir uma solução sustentável, mantendo as operações e preservando o valor dos nossos ativos, projetos e conhecimento”.
Os números do primeiro semestre de 2026 mostram a gravidade da situação. A receita foi de 6,1 milhões de euros, queda de 14% em relação ao mesmo período de 2025. As vendas de jogos somaram 3,5 milhões de euros, vindos principalmente da presença de Lost Records no PlayStation Plus e no Game Pass, das primeiras vendas de Aphelion e de sua entrada no Game Pass, além do catálogo antigo. Segundo o estúdio, as vendas de Aphelion ficaram abaixo das expectativas. Outros 2,6 milhões de euros vieram de serviços de desenvolvimento, gerados pelo estúdio de Montreal, que trabalha em um jogo narrativo baseado em uma grande marca da Netflix, financiado pela empresa.
O EBITDA operacional foi negativo em 4,3 milhões de euros, ante 2 milhões negativos um ano antes, e o prejuízo líquido ficou em 7,1 milhões de euros, menor que os 20,8 milhões do primeiro semestre de 2025, quando o estúdio registrou 15,4 milhões em baixas contábeis. O caixa caiu de 15,5 milhões de euros no fim de 2025 para 9,9 milhões em 30 de junho. O estúdio diz que a continuidade das operações nos próximos 12 meses depende de financiamento externo, o que representa uma incerteza relevante sobre sua capacidade de seguir funcionando depois de 31 de janeiro de 2027.
Os gastos com pessoal caíram 34%, para 8,2 milhões de euros, resultado do plano de corte de custos iniciado no fim de 2024, que incluiu demissões em 2025. Em 1º de setembro, o Don’t Nod anunciou um novo plano de reestruturação que concentra as operações na França em uma única linha de produção, sem afetar o estúdio de Montreal, e que pode eliminar até 85 vagas no país. Na mesma época, o estúdio já tinha alertou para uma “incerteza significativa” sobre sua continuidade. Guilbert diz estar “plenamente ciente do impacto deste período de transformação” nas equipes e promete conduzir o processo com responsabilidade e apoio aos funcionários afetados.
O Don’t Nod desenvolveu os dois primeiros Life is Strange, de 2015 e 2018, publicados pela Square Enix, dona da marca. Os outros jogos da série, como Before the Storm, True Colors e Double Exposure, foram feitos pelo estúdio Deck Nine. O Don’t Nod também é responsável por Remember Me, Vampyr, Tell Me Why e Twin Mirror e, nos últimos anos, passou a publicar os próprios jogos, como Harmony: The Fall of Reverie, Jusant e Lost Records. Jusant e Banishers, ambos de 2023 e 2024, foram bem recebidos, mas venderam bem abaixo do esperado, o que deu início à crise do estúdio.