Shigeru Miyamoto, criador de Super Mario, The Legend of Zelda e Donkey Kong, vai receber a Ordem da Cultura, principal condecoração cultural do Japão. O governo japonês anunciou nesta sexta-feira (23) os oito agraciados de 2026, e Miyamoto, de 73 anos, é o primeiro nome da indústria de games a receber a honraria, criada em 1937. Ele foi incluído na área de artes de mídia, na categoria games, um campo que nunca tinha sido contemplado. A cerimônia acontece em 3 de novembro, Dia da Cultura no Japão, no Palácio Imperial, em Tóquio, com a entrega feita pelo imperador.
Os outros agraciados deste ano são a designer de iluminação Motoko Ishii, o arquiteto Toyo Ito, o biólogo Tsuneyoshi Kuroiwa, o especialista em literatura francesa Tetsuya Shiokawa, o químico Kenso Soai, que vai receber o Nobel de Química deste ano, o compositor Shunichi Tokura e o imunologista Shigekazu Nagata. A lista de honrados ao longo da história inclui nomes como o cineasta Akira Kurosawa e o escritor Yasunari Kawabata, e, em 2024, o mangaká Tetsuya Chiba. Miyamoto já havia sido o primeiro criador de jogos escolhido como Pessoa de Mérito Cultural, outra distinção do governo japonês, em 2019.
Antes do anúncio, na quinta-feira (22), Miyamoto deu uma entrevista coletiva de cerca de uma hora na sede da Nintendo, em Kyoto, para cerca de 50 jornalistas. Visivelmente sem jeito, ele dividiu o crédito com os colegas. “Estou bem sem graça com tudo isso, mas sinceramente honrado por ter sido escolhido para uma condecoração tão importante”, disse. “Como sempre digo, games não são algo que um autor faz sozinho. São o resultado de um trabalho feito com muitas pessoas, então recebo a honraria em nome delas.” Ele também citou os trabalhos recentes fora dos jogos, como o parque Super Nintendo World e os filmes de Mario, e disse querer dividir a alegria com todos que participaram deles.
Miyamoto, que entrou na Nintendo em 1977 e hoje é diretor representante e “fellow” da empresa, contou que costuma dizer que faz jogos há 45 anos, mas que, contando desde a sua entrada, a conta chega a cerca de 50. “Começamos com uma mídia que nem sabíamos se teria forma, e ter estado lá desde o início foi o que me trouxe este tratamento. Foi uma escolha de muita sorte”, brincou. Perguntado sobre o que significa os games serem reconhecidos como cultura, respondeu: “Virar cultura quer dizer que se tornou algo comum, do dia a dia”.
Na mesma entrevista, ele foi perguntado sobre a inteligência artificial generativa e disse não acreditar que ela vá tornar o trabalho criativo humano dispensável. Para explicar, comparou a situação à chegada dos computadores. “Os designers aprendiam na escola o lettering, a técnica de desenhar as letras de um cartaz de forma bonita. Só por saber fazer isso, você já podia ser chamado de designer. Ou bastava pegar um estilo que estava na moda no exterior, adaptar para o japonês e diagramar”, disse. “Mas, quando os computadores e os processadores de texto evoluíram e passaram a cuidar dessa parte técnica, é que o senso de diagramação e a capacidade de design de cada pessoa finalmente apareceram. Com a IA, é exatamente isso que está acontecendo agora.”
“Nós sempre separamos ‘criar’ de ‘trabalhar’. Quando você quer criar algo, monta uma estrutura geral. Daí em diante, é trabalho braçal: preencher os buracos, dar acabamento. O problema é que esse trabalho é divertido, dá uma enorme sensação de estar criando”, afirmou. “O perigo é ficar satisfeito com esse trabalho e se enganar achando que fez algo muito bom. Nesse sentido, quanto mais a IA fizer esse tipo de tarefa, mais todo mundo terá a chance de pensar seriamente no que é criar de verdade, e acho isso ótimo.” Para ele, obras feitas só de cópia não duram, porque falta a intenção de quem as projeta. “Não sei até onde a IA vai evoluir, talvez um dia faça tudo, mas ainda resta muita coisa que nós podemos fazer.” A visão é parecida com a de Masahiro Sakurai, que, em entrevista publicada na semana passada, disse que a IA vai valorizar quem cria algo realmente novo.
Miyamoto também deixou um conselho para jovens criadores: não partir de um jogo de que gostam pensando em como melhorá-lo, mas da ideia original de “o que aconteceria se eu fizesse isso?”, o que considera mais divertido e gratificante. Entre suas maiores influências, citou o ex-presidente da Nintendo Hiroshi Yamauchi, que cobrava originalidade da equipe, Gunpei Yokoi, criador do Game Boy, e o escritor Shigesato Itoi, de Mother. Sobre o futuro, disse estar envolvido com cinema, mas que pode voltar a fazer algo parecido com um jogo. “Como falamos tanto em originalidade, penso em fazer algo que nunca foi feito na Nintendo e surpreender os funcionários”, afirmou.