As ações da Ubisoft despencaram de forma vertiginosa na manhã desta quinta-feira, refletindo de maneira imediata e contundente os anúncios feitos pela empresa na véspera sobre uma ampla reestruturação interna e o cancelamento de vários projetos. Os papéis da editora francesa estão caindo cerca de 37% no pregão, em um movimento que aprofundou ainda mais a crise enfrentada pela companhia.
No momento da redação deste texto, a ação da Ubisoft era negociada a € 4,15, bem abaixo dos € 6,64 registrados no fechamento do mercado na quarta-feira, representando uma queda de mais de um terço em menos de 24 horas. Trata-se do menor valor das ações da empresa em mais de 14 anos. A última vez que os papéis da Ubisoft haviam sido negociados abaixo de € 5 foi no fim de 2011. O contraste é ainda mais expressivo quando comparado ao auge histórico: em julho de 2018, as ações chegaram a € 107,90, impulsionadas por um ano marcado por lançamentos de peso como Assassin’s Creed Odyssey, Far Cry 5, The Crew 2 e South Park: The Stick of Truth. Desde então, o declínio tem sido constante, e a desvalorização atual representa uma perda de cerca de 95,9% em relação àquele pico.
O tombo ocorre um dia após a Ubisoft detalhar uma reestruturação organizacional profunda, que dividirá suas operações criativas em cinco divisões distintas. A empresa afirma que o processo, que já vinha sendo preparado há cerca de um ano, tem como objetivo “recuperar sua liderança criativa” e “impulsionar uma forte recuperação” após anos marcados por lançamentos mal recebidos, instabilidade interna e uma forte queda no valor de mercado, que culminou recentemente na venda de uma participação minoritária para a Tencent. O mercado, no entanto, reagiu negativamente ao anúncio, interpretando as medidas como um sinal de fragilidade financeira e incerteza estratégica.
Como parte do mesmo comunicado, a Ubisoft informou que espera registrar um prejuízo operacional de aproximadamente € 1 bilhão no atual ano fiscal, que se encerra em março de 2026. Esse resultado negativo inclui uma baixa contábil de € 650 milhões diretamente relacionada à reestruturação. A empresa também anunciou o cancelamento de seis jogos, entre eles o remake de Prince of Persia: The Sands of Time, além do adiamento de outros sete projetos. Paralelamente, a editora pretende acelerar seu plano de redução de custos, com a meta de cortar mais € 200 milhões em custos fixos ao longo dos próximos dois anos.
Apesar da dimensão dos cortes, a Ubisoft evitou comentar diretamente sobre o número de demissões que podem ocorrer. Sobre os projetos cancelados, o diretor financeiro Frederick Duguet afirmou que “algumas pessoas serão realocadas para outros grandes projetos, e outras poderão deixar a empresa”, declaração que aumentou a apreensão entre os funcionários.
O clima de incerteza se transformou rapidamente em tensão aberta. O sindicato francês Solidaires Informatique convocou uma greve nacional dos funcionários da Ubisoft, denunciando o que classifica como um estilo de gestão “desconectado da realidade” e a deterioração contínua das condições de trabalho após sucessivos fracassos do grupo. Em comunicado divulgado nas redes sociais, o sindicato fala em uma grave quebra de confiança entre a direção e os trabalhadores, criticando as reestruturações recorrentes que destroem empregos, o fim do trabalho remoto em tempo integral imposto pela administração e a ausência de reajustes salariais compatíveis com a inflação.
Segundo a entidade, instalou-se na empresa uma política de “se vira ou afunda”, na qual os funcionários pagam o preço por decisões estratégicas equivocadas tomadas pela alta cúpula. A greve é apresentada como um ato de defesa da saúde mental e física dos trabalhadores, exaustos por ciclos de produção caóticos, mudanças constantes de rumo e pela instabilidade permanente dos projetos, que culminou no cancelamento definitivo do remake de Prince of Persia: The Sands of Time anunciado na quarta-feira.