Um dos co-fundadores do Xbox acredita que as mudanças no comando da divisão de jogos anunciadas pela Microsoft na semana passada são parte de um plano de encerrar o Xbox gradualmente.
Seamus Blackley, que produziu jogos como Jurassic Park: Trespasser nos anos 90 e fez parte da equipe que criou o Xbox original em 2001, repercutiu a notícia da saída de Phil Spencer e a nomeação da nova CEO do Xbox, Asha Sharma, em comentários ao site GamesBeat. Para ele, esta mudança indica que a Microsoft pretende encerrar o Xbox e a nova CEO foi contratada “como um médico de cuidados paliativos que desliza suavemente o Xbox noite adentro”.
O co-criador do Xbox disse acreditar que a nomeação de Sharma, uma executiva jovem e sem experiência em videogames, indica que a prioridade da Microsoft é a IA generativa e o Xbox não teria mais espaço nos planos da empresa.
“Satya Nadella (CEO da Microsoft) fez um número incrível de apostas e investiu uma quantidade incrível de dinheiro e credibilidade no futuro do modelo de transformação da IA”, disse Blackley. “O Xbox, como muitos negócios que não são o principal negócio de IA, está sendo encerrado. Eles não dizem isso, mas é isso que está acontecendo. Espero que o trabalho da nova CEO, Asha Sharma, seja o de uma médica de cuidados paliativos que desliza suavemente o Xbox noite adentro”.
A impressão de Blackley se deve muito à escolha de Sharma como CEO, sendo que a própria executiva admitiu não ser adepta ao hobby dos videogames.
“Imagino perguntar a alguém se fazia sentido colocar um grande estúdio cinematográfico nas mãos de alguém que não gosta de filmes, ou uma grande gravadora nas mãos de alguém que nunca tinha visto um show ao vivo. Por que você faria isso? Bem, você só faz isso se estiver olhando o problema de uma forma mais abstrata”, comentou Blackley.
“A consequência natural do foco na IA é que a IA abstrai todos os problemas das mentes dos executivos que acreditam nela. Estamos abstraindo o problema dos jogos também. Há uma crença central, e você pode ver isso no que Satya disse, que a IA irá incluir os jogos como irá incluir tudo”.
O cofundador do Xbox disse acreditar que, “quer você concorde ou não com” a IA generativa, a Microsoft está conduzindo todas as suas unidades de negócios nessa direção, incluindo jogos.
“Isso não é de forma alguma surpreendente”, disse ele. “Teria sido chocante se eles tivessem alguém em uma função significativa que fosse apaixonado por jogos, apaixonado pelo negócio de jogos voltado para criadores, porque isso estaria em conflito direto com tudo o mais que a Microsoft está fazendo. A Microsoft é uma empresa que agora pretende capacitar seus clientes, permitindo que a IA conduza as coisas. Isso está em desacordo com o modelo de autor de qualquer arte, mas especificamente dos jogos. A Microsoft não tem o problema que a Apple tem, ou que a Netflix tem, onde eles têm um modelo de conteúdo dirigido pelo autor para gerenciar. Os jogos são o único lugar onde eles têm um negócio de conteúdo”.
Em sua primeira declaração na semana passada, Sharma afirmou que a Microsoft não inundará seus jogos com “resíduos de IA sem alma”. “A IA faz parte dos jogos há muito tempo e continuará a fazer”, disse ela, observando que os jogos precisam de novos “motores de crescimento”, mas que “grandes histórias são criadas por humanos”.
Para Blackley, no entanto, a declaração não passa de chavões vazios e algo “que todas as pessoas que foram trazidas para jogos de outras indústrias disseram quando foram contratadas, em todos os comunicados de imprensa, provavelmente há mais tempo do que você e eu estamos neste negócio”.
Ele também compartilhou alguns conselhos para a nova chefe do Xbox, sugerindo que ela procure conselhos de executivos mais experientes e que gostam de jogos de verdade. “Se você quiser procurar pessoas para imitar, dê uma olhada em Shuhei Yoshida (ex-Sony)”, disse ele. “Eu diria a ela para passar um dia com Shu. Vá passar um dia com Peter Moore (ex-Xbox). Vá passar um dia com Phil Harrison (ex-Sony). Vá e passe um dia, se puder, com alguns dos caras da Nintendo. Encontre Reggie (Fils-Aime, ex-CEO da Nintendo of America). Passe um dia com Reggie. Vá e converse com esses líderes sobre como eles tiveram sucesso e fracassaram no negócio. Aprenda com eles. Não tente inventar sozinho. Vá buscar esses dados. Eles estão todos por aí. Tenho certeza, Reggie… há um executivo da Nintendo que saiu recentemente e pode ser muito interessante para ela conversar, certo? Esse seria o meu conselho. Vá falar com todas essas pessoas”.