A crise que se instalou na Ubisoft após o anúncio de sua ampla reestruturação reverberou não apenas no preço das ações da empresa, como na moral dos funcionários, indo muito além das demissões e cancelamentos de projetos já confirmados. Relatos publicados pelo jornalista Tom Henderson no X indicam que a editora francesa enfrenta agora o risco real de um êxodo massivo de funcionários, impulsionado pelo desgaste acumulado entre as equipes e pela perda de confiança na alta administração.
De acordo com Henderson, os canais internos de comunicação da Ubisoft foram tomados por mensagens de funcionários criticando abertamente a diretoria e exigindo mudanças estruturais. O tom das conversas, segundo o jornalista, é incomum para uma grande empresa do setor, mas reflete anos de frustração diante de decisões consideradas equivocadas, reestruturações sucessivas e um ambiente de trabalho cada vez mais instável. Para alguns desenvolvedores, o anúncio mais recente foi “o prego final no caixão”, levando-os a decidir que irão buscar emprego em outras empresas. Outros, que já mantinham planos de contingência em caso de demissão, optaram por acelerá-los.
Há ainda relatos de funcionários que passaram a anunciar publicamente no LinkedIn que estão em busca de novas oportunidades, mesmo ainda empregados na Ubisoft. Segundo Henderson, isso reforça a percepção de que a empresa deve sofrer uma saída significativa de funcionários independentemente das demissões que já estão no horizonte.
Embora o anúncio da reestruturação tenha ganhado destaque principalmente pelos projetos cancelados, estúdios fechados e jogos adiados, o jornalista aponta que o impacto humano das medidas acabou sendo subestimado. A Ubisoft confirmou que está iniciando a terceira e, segundo a própria empresa, última fase de seu plano de redução de custos, com a meta de economizar mais € 200 milhões até o fim de março de 2028. Essa fase se soma a uma segunda rodada iniciada há quatro anos, que já havia previsto cortes de € 300 milhões.
Os números ajudam a dimensionar o impacto. Entre setembro de 2022 e setembro de 2025, o número de funcionários da Ubisoft caiu de 20.729 para 17.097, uma redução de 3.632 pessoas. Nesse período, estúdios em cidades como Londres, Osaka, San Francisco, Leamington, Halifax e Estocolmo foram fechados. Novas demissões, inclusive, já estão previstas para serem anunciadas em 12 de fevereiro de 2026. Com base em proporções semelhantes às rodadas anteriores, Henderson estima que essa terceira fase de cortes possa resultar em aproximadamente 2.400 empregos perdidos até 2028.
Além disso, a empresa planeja impor um retorno obrigatório ao escritório cinco dias por semana, oferecendo apenas “auxílios anuais” para o trabalho remoto. Oficialmente, a Ubisoft afirma que a medida busca aumentar “eficiência, criatividade e sucesso coletivo”. Para muitos desenvolvedores, no entanto, trata-se de mais uma estratégia para forçar saídas voluntárias, reduzindo o quadro de funcionários sem a necessidade de anunciar grandes ondas de demissões e, assim, evitar repercussão negativa na imprensa.
Segundo o jornalista, práticas semelhantes já vêm sendo adotadas há anos, incluindo a não renovação de contratos, a alocação de profissionais sem tarefas relevantes na expectativa de que peçam demissão e a imposição de políticas rígidas de retorno presencial. O resultado, segundo ele, é um ambiente descrito como um dos mais desgastantes da indústria de games, marcado por má gestão, mudanças estruturais constantes e ausência de responsabilização da liderança.
Following the announcement of Ubisoft's restructuring and third round of cost-cutting measures, Ubisoft's internal communication channels are full of employees shaming upper management and asking for change. It's quite something seeing people very openly criticising a company… https://t.co/jodMK6qx4B
— Tom Henderson (@_Tom_Henderson_) January 23, 2026