A crise vivida pela Ubisoft ganhou um novo capítulo nesta semana com a proposta de um corte significativo de postos de trabalho em sua sede de Paris. Após o anúncio recente de um “grande reset” interno, a editora francesa informou que estuda a eliminação de até 200 empregos em sua matriz na França, o equivalente a cerca de 18% da força de trabalho local, aprofundando o clima de incerteza que já domina a empresa.
A medida faz parte da ampla reestruturação anunciada na semana passada, na qual a Ubisoft revelou uma mudança profunda em seu modelo organizacional. Entre as principais alterações está a divisão das equipes de desenvolvimento em unidades autônomas chamadas de “casas criativas”, enquanto o papel da sede francesa passará a ser mais enxuto e focado em governança, priorização estratégica e alocação de capital.
Em um e-mail enviado aos funcionários na segunda-feira, a empresa confirmou o início de negociações para uma Rupture Conventionnelle Collective (RCC), um mecanismo do direito trabalhista francês que permite a redução do quadro de funcionários por meio de acordos coletivos e voluntários, negociados com sindicatos. A proposta se aplica exclusivamente a empregados da Ubisoft International com contratos franceses e, caso seja aprovada, pode resultar no corte de até 200 posições na França. A empresa ressalta, no entanto, que nenhuma decisão será definitiva até que um acordo coletivo seja firmado com os representantes dos trabalhadores e validado pelas autoridades francesas.
Em comunicado compartilhado com o site VGC, um porta-voz da Ubisoft afirmou que a iniciativa está alinhada aos anúncios feitos na semana anterior sobre o novo modelo operacional e a aceleração das medidas de redução de custos. Segundo a empresa, trata-se apenas de uma proposta em discussão, sem impacto sobre outras entidades da Ubisoft na França ou equipes da companhia em outras partes do mundo.
O contexto jurídico francês torna o processo particularmente sensível. A França possui um dos sistemas de proteção ao emprego mais rigorosos do mundo, exigindo “causa real e séria” para demissões e obrigando as empresas a buscar alternativas como realocação antes de efetivar cortes coletivos. Nesse cenário, o uso da RCC surge como uma tentativa de conduzir a redução de pessoal de forma negociada, minimizando conflitos legais e sindicais.
O anúncio dos cortes na sede ocorre poucos dias após a Ubisoft confirmar o cancelamento de seis jogos, o adiamento de outros sete projetos e o fechamento de dois estúdios como parte de sua reestruturação global. A empresa também reiterou que está acelerando suas iniciativas de redução de custos, com a meta de cortar mais € 200 milhões em custos fixos ao longo dos próximos dois anos. Segundo a direção, o grupo será “enxugado” para dar suporte mais eficiente às novas casas criativas, enquanto a sede francesa será “remodelada” para concentrar-se em estratégia, governança, gestão de desempenho e disciplina de capital.
Em declaração oficial, o fundador e CEO da Ubisoft, Yves Guillemot, afirmou que a companhia está entrando em “uma nova fase”, com o objetivo de recuperar sua liderança criativa e gerar valor de longo prazo para jogadores e acionistas. O mercado, no entanto, segue reagindo com ceticismo. Após os anúncios da semana passada, as ações da Ubisoft sofreram uma queda acentuada de 37% em um dia, mas nesta segunda-feira ensaiaram uma recuperação com alta de cerca de 9%.