Poucos lançamentos recentes ilustram tão bem o contraste entre acerto e tropeço quanto Arc Raiders, da Embark Studios, e Marathon, da Bungie. Os dois são shooters multiplayer com pegada de extração, chegaram ao mercado em janelas próximas e prometem suporte de longo prazo como jogos-serviço — mas encontraram recepções muito diferentes.
Arc Raiders decolou como um fenômeno quase imediato: base de jogadores sólida, elogios pela acessibilidade em relação a extraction shooters mais hardcore, e um ritmo de atualizações mensais que, embora ambicioso, mostrou a disposição da Embark em ouvir a comunidade. Marathon, por outro lado, vem enfrentando resistência desde o lançamento. Apesar de reviews elogiando a qualidade da experiência de tiro, o jogo patina em número de jogadores, perdeu o diretor do projeto em uma saída de alto perfil e convive com sinais preocupantes dentro da própria Bungie, incluindo a notícia de que o estúdio colocou grandes áreas de seu escritório para sublocação.
Enquanto os jogos de extração se mantém em alta, assim como os palpites nas bet aposta futebol, os dois times reformulam seus planos de conteúdo quase ao mesmo tempo — e, curiosamente, na mesma direção: menos atualizações, porém maiores.
Arc Raiders: sucesso que exige ajustes de rota
Depois do lançamento, a Embark tentou sustentar um cronograma de atualizações mensais para Arc Raiders. Em um comunicado publicado em maio, o estúdio reconheceu que esse ritmo não era sustentável e que limitava o impacto de cada atualização. A partir daí, a Embark anunciou uma mudança estrutural: passar a entregar apenas duas grandes atualizações por ano, complementadas por ajustes menores e mais frequentes (balanceamento, correções de bugs e renovações de loja).
A primeira atualização sob esse novo modelo é a Frozen Trail, chamada pela própria Embark de maior atualização já lançada desde o lançamento do jogo, prevista para 8 de outubro. Entre as novidades anunciadas estão:
- O maior mapa já lançado no jogo, ambientado em uma nova paisagem no Rust Belt, com design em camadas e novos mistérios a explorar;
- Novos ARCs (os inimigos robóticos do jogo), com designs inéditos e comportamentos mais sofisticados, na operação mais ambiciosa já feita contra eles;
- Novos sistemas de progressão, pensados para dar objetivos adicionais a jogadores que já zeraram o hideout e a árvore de habilidades;
- Uma primeira imersão na origem do ARC, explorando um dos pilares centrais da narrativa do jogo;
- Uma árvore de habilidades aprimorada, ainda sem detalhes de formato;
- Novas armas, itens, instrumentos e cosméticos.
Enquanto isso, o sistema de Expeditions — o mecanismo opcional de “wipe suave” que funciona como uma busca de prestígio no fim de jogo — está suspenso até o início de 2027. Em entrevista durante a Gamescom, o produtor executivo Aleksander Grøndal admitiu que o sistema nunca funcionou como esperado, apesar de ajustes feitos a cada grande temporada, e que a equipe considera até “descartar o sistema por completo”. Segundo ele, apenas uma parcela pequena da base de jogadores efetivamente participa das Expeditions hoje, e a equipe está reavaliando do zero qual deve ser o próximo passo para o recurso.
O recado da Embark é claro: aceitar um intervalo maior entre grandes atualizações em troca de mudanças mais profundas em progressão, economia, fair play e sistemas anticheat — áreas que, segundo o estúdio, sofriam justamente pela pressão de um ciclo mensal.
Marathon: reformulação para tentar reverter a maré
O caminho da Bungie com Marathon segue lógica parecida, mas nasce de um contexto bem mais delicado. A atualização que estava marcada para 22 de setembro foi adiada para 8 de dezembro, e o estúdio aproveitou o anúncio para encerrar o modelo de “temporadas estritas” que vinha regendo o suporte pós-lançamento do jogo.
Em comunicado, a Bungie reconheceu que “Marathon precisa de mais profundidade, mais variedade, progressão mais forte e razões melhores para continuar jogando a longo prazo” — uma frase que ecoa quase palavra por palavra críticas recorrentes feitas a Destiny 2 ao longo dos anos.
O conteúdo originalmente previsto para setembro será incorporado à atualização batizada de Symbiosis, agora marcada para 8 de dezembro. Ela deve trazer:
- Um novo shell Runner;
- Uma experiência PvE permanente;
- Uma versão renovada da zona Perimeter;
- Um espaço social/estande de tiro;
- Um modo experimental de Team Deathmatch (TDM);
- Melhorias na experiência de novos jogadores.
A Bungie chama a Symbiosis de “primeiro grande passo do próximo capítulo de Marathon”, classificando-a como o início de uma evolução mais ampla que deve seguir até março de 2027 e depois. Antes disso, porém, uma atualização menor está prevista para 6 de outubro, com foco em “atualizar recompensas”, reset de progressão e da economia interna — algo parecido com um wipe sazonal tradicional —, além de ajustes de balanceamento, um novo passe de recompensas e o retorno, por tempo limitado, do modo PvE experimental Vault Breaker.
O pano de fundo dessa reformulação não é nada animador para a Bungie. Marathon segue com números de jogadores baixos — a própria matéria original aponta que Destiny 2, mesmo após o fim de seu desenvolvimento ativo, ainda registra picos diários de jogadores simultâneos no Steam muito superiores aos de Marathon. Some-se a isso a saída do diretor do jogo, Joe Ziegler, e a notícia de que a Bungie está subarrendando grandes espaços de seu escritório, e fica claro por que o estúdio decidiu repensar o suporte ao jogo antes mesmo de completar seu primeiro ano de vida.
Dois estúdios, uma mesma aposta
É difícil não notar a semelhança estratégica entre os dois anúncios, feitos quase ao mesmo tempo: tanto Embark quanto Bungie estão trocando atualizações frequentes e pontuais por um modelo de menos lançamentos, porém mais substanciais. A diferença está no ponto de partida. A Embark faz esse ajuste a partir de uma posição de força, tentando prolongar e aprofundar o sucesso já conquistado por Arc Raiders. A Bungie, por sua vez, tenta usar a mesma receita como parte de um esforço maior para reverter a resistência que Marathon enfrenta desde o lançamento — em um momento que parece, cada vez mais, uma tentativa de relançamento do jogo em tudo, menos no nome.