A poucos meses do lançamento de Grand Theft Auto VI, marcado para 19 de novembro, a Rockstar Games enfrenta uma onda de acusações vindas de dentro de seus próprios estúdios. Três integrantes do Rockstar Game Workers Union (RGWU), que preferiram não se identificar por medo de represálias, relataram ao site Game Developer uma série de problemas na forma como a empresa trata seus funcionários, incluindo falta de transparência em torno de pagamentos e bônus, um aumento na desigualdade salarial entre gêneros e a normalização do crunch obrigatório.
Segundo os funcionários, uma parte significativa da remuneração na Rockstar vem na forma de bônus que variam de forma imprevisível, muitas vezes sem justificativa clara. Um dos trabalhadores explicou que, quando o bônus é bom, funciona como uma espécie de premiação inesperada, mas quando é ruim, o funcionário pode acabar recebendo consideravelmente menos do que esperava ao longo do ano — e os critérios usados para definir esses valores costumam ser vagos, inconsistentes entre departamentos e até entre colegas da mesma equipe. Também foi dito à publicação que promoções são difíceis de conseguir porque a empresa frequentemente muda os critérios de progressão de carreira no meio do processo, o que geraria uma cultura de submissão, já que qualquer atitude poderia, em tese, afetar o bônus anual.
Um dos pontos mais sensíveis levantados pelos trabalhadores é o aumento da disparidade salarial entre gêneros. De acordo com os relatos, a diferença entre os salários medianos de homens e mulheres na empresa teria crescido, enquanto iniciativas voltadas a corrigir esse desequilíbrio foram abandonadas. Também haveria o fim de benefícios extras para quem trabalha em turnos noturnos, compensação que antes existia para equilibrar a rotina desgastante desses horários.
Outro tema recorrente nos relatos é o chamado crunch — a prática de exigir jornadas extraordinárias de trabalho para cumprir prazos de lançamento. Segundo os funcionários, a Rockstar teria incorporado essa lógica diretamente aos contratos de trabalhadores no Reino Unido, incluindo por padrão uma cláusula de recusa aos direitos trabalhistas britânicos que limitam a quantidade de horas extras que um empregador pode solicitar. O sindicato conseguiu informar os trabalhadores de que era possível reverter essa cláusula a qualquer momento, o que levou a empresa a simplificar o processo — mas, segundo os entrevistados, a Rockstar passou a argumentar que, ao oferecer uma compensação financeira específica pelas horas extras, a prática deixaria de ser tecnicamente crunch. Os funcionários também relataram que existem equipes que praticamente nunca enfrentam esse tipo de sobrecarga, enquanto outras parecem nunca escapar dela — e que muitas vezes um grupo nem sabe da realidade do outro.
A questão do trabalho remoto também apareceu nas críticas. Após a pandemia, a flexibilidade entre home office e escritório teria ajudado funcionários, especialmente aqueles com filhos, a equilibrar melhor a vida pessoal e profissional. Contudo, os trabalhadores afirmam que a Rockstar prometeu manter esse modelo e depois recuou, exigindo o retorno ao trabalho presencial em nome de uma maior “colaboração” — ainda que líderes da empresa continuem tendo liberdade para trabalhar de forma flexível quando desejam.
Questionada pelo Game Developer, a Take-Two Interactive, controladora da Rockstar, respondeu com uma nota afirmando que busca oferecer aos times um ambiente de trabalho de classe mundial e oportunidades de carreira contínuas, dizendo apoiar e recompensar os funcionários por meio de políticas de remuneração e benefícios competitivas, e destacando índices de retenção de funcionários acima da média do setor. A empresa também confirmou ter recebido um pedido formal de um sindicato buscando reconhecimento voluntário e disse estar disposta a um diálogo aberto com os envolvidos.
Essas acusações surgem justamente no momento em que o RGWU, vinculado à Independent Workers’ Union of Great Britain (IWGB), intensifica sua campanha por reconhecimento oficial. No dia 30 de junho, o sindicato protocolou formalmente um pedido de reconhecimento voluntário junto à Rockstar, pedindo que a empresa se reúna com os trabalhadores para negociar melhores condições de trabalho, justiça salarial e voz institucional dentro da companhia. Pelas regras trabalhistas do Reino Unido, os empregados já têm o direito de se organizar sem interferência da empresa, mas o reconhecimento formal daria ao sindicato proteções adicionais e abriria canais oficiais de negociação coletiva com a gestão — incluindo, segundo o próprio sindicato, temas como transparência salarial, flexibilidade de trabalho e o combate ao crunch.
O momento escolhido para o pedido não é casual: ele chega junto com o anúncio de que as pré-vendas de GTA 6 já teriam batido a marca de 3 bilhões de dólares, um dado usado pelo sindicato para argumentar que a empresa tem plena capacidade financeira para atender às demandas dos trabalhadores. Josh Walter, testador de controle de qualidade sênior no escritório da Rockstar em Lincoln, disse que a empresa lidera a indústria nos jogos que produz e que os trabalhadores acreditam que ela também pode liderar em como trata as pessoas responsáveis por essa produção — destacando que disparidades salariais, jornadas excessivas e falta de flexibilidade prejudicam a capacidade da equipe de produzir seu melhor trabalho.
O pedido de reconhecimento ocorre em paralelo a uma disputa jurídica já em curso entre a Rockstar e a IWGB. Em outubro do ano passado, a empresa demitiu mais de 30 funcionários em estúdios no Reino Unido e no Canadá, alegação que o sindicato classificou como retaliação direta à atividade sindical dos trabalhadores — uma acusação de “union busting” que a Rockstar nega, afirmando que as demissões ocorreram por má conduta grave, ligada ao vazamento de informações confidenciais sobre GTA 6 em um canal do Discord. O caso deve seguir agora para uma audiência de tribunal completa ainda este ano, depois que o sindicato conquistou o direito de argumentar também alegações de “lista negra” contra ex-funcionários demitidos.
Segundo apurado pelo jornal britânico The Guardian, os organizadores do sindicato afirmam estar dispostos a recorrer a medidas mais duras, incluindo uma possível greve, caso a Rockstar não avance com o reconhecimento antes do lançamento do jogo. Jordan Garland, um dos ex-funcionários demitidos em outubro, disse esperar que a empresa reconheça voluntariamente o sindicato e afirmou que o objetivo é garantir que uma situação como aquela nunca se repita — nem na Rockstar, nem em qualquer outro lugar da indústria. Já Shanti Easton-Steel, coordenadora de produção da Rockstar North em Edimburgo, destacou que o esforço coletivo de colegas atuais e ex-funcionários colocou o movimento em posição forte para buscar o reconhecimento formal, e disse que a melhor forma de homenagear quem foi demitido é justamente continuar a luta que eles ajudaram a iniciar.
Diante da repercussão, a Rockstar confirmou ter recebido o pedido de reconhecimento e afirmou pretender se reunir com o sindicato para construir um diálogo aberto e construtivo com todas as partes interessadas.
Grand Theft Auto VI tem lançamento marcado para 19 de novembro no PS5 e Xbox Series X|S.