Funcionários e ex-funcionários da Electronic Arts descreveram um ambiente de trabalho deteriorado depois da nova rodada de demissões da empresa. Em reportagem do jornalista Chris Kerr, publicada no site Vertical Slice, as fontes, que pediram anonimato, afirmam que o moral está em queda, criticam a pressão pelo uso de IA generativa e acusam a liderança de má gestão. A EA não comentou as alegações na reportagem.
Segundo o texto, a EA demitiu cerca de 400 pessoas na semana passada, menos de três meses depois de ter seu capital fechado por um consórcio liderado pela Arábia Saudita, em um negócio de US$ 55 bilhões. Além do fechamento da BioWare, estúdios como Maxis, Full Circle, Motive, Respawn e Ripple Effect também teriam sido afetados.
“O moral tem estado terrível. A frase que ouvíamos o tempo todo era ‘fazer menos, e melhor’, mas parecia que estávamos fazendo a mesma quantidade com menos pessoas. A alta gerência estava muito animada com o Claude e com as possibilidades da IA [generativa], para desgosto da minha equipe”, disse uma das fontes.
Sobre a IA, a reportagem afirma que outras fontes confirmaram que a tecnologia está sendo “fortemente incentivada”, mas ainda não é obrigatória. “A mensagem de todos os gerentes que ouvi é ‘este é o futuro, vocês precisam embarcar'”, disse uma pessoa. Outra afirmou: “Eles não vão dizer que essas ferramentas são obrigatórias, mas vão tornar impossível ou muito difícil fazer seu trabalho sem elas”. Segundo o texto, a percepção entre os funcionários é de que a empresa usa a IA para descobrir com quantas pessoas consegue continuar fazendo jogos.
As fontes também criticam a forma como as demissões são conduzidas. De acordo com a reportagem, a EA não informa às equipes quem foi demitido, o que faz com que colegas só descubram por publicações no LinkedIn ou por conversas informais entre estúdios. Quem foi desligado relata ter sido chamado para reuniões no Zoom com o chat desativado e os demais participantes ocultos. “É muito impessoal. Você está sendo demitido porque é só um número numa lista”, disse uma fonte. A empresa teria oferecido a parte dos demitidos um prazo para buscar outras vagas internas, mas muitas exigem trabalho presencial três dias por semana.
Outra fonte disse que existe a sensação de que “os executivos da EA não podem falhar, só ser falhados”. “Eles têm a sorte de que [EA Sports FC] vende e dá tanto dinheiro que consegue financiar suas apostas ruins”, afirmou. A reportagem também cita a mudança de um escritório no centro de Seattle para Kirkland, feita para acomodar os estúdios Ridgeline Games e Cliffhanger Games, que foram fechados antes ou pouco depois da inauguração. Já na Full Circle, de Skate, as demissões teriam atingido de 30% a 40% de uma equipe de mais de 100 pessoas, apesar de a EA afirmar no e-mail sobre os cortes que a franquia tem “potencial de longo prazo”.
Sobre a BioWare, as fontes dizem que o estúdio foi repetidamente orientado a trocar o foco em escolhas, consequências e companheiros por elementos de serviço contínuo e multijogador. “Muito dinheiro foi desperdiçado seguindo caminhos que não levavam a lugar nenhum”, disse uma pessoa. Outra afirmou que a liderança do estúdio “se degradou lentamente”, tomada pelo medo: “Nunca houve vontade de correr riscos. Nunca houve vontade de fazer algo interessante. Era só ‘é isso que estes 14 estudos de UXR [pesquisa de experiência do usuário] dizem, então temos que fazer assim'”.
A reportagem termina com o relato de uma das fontes: “Que o e-mail recente sobre as mudanças na organização parecesse ter sido escrito por um robô resume bem a EA. Um lugar frio e morto que está apodrecendo lentamente enquanto a liderança surrupia cada último centavo, deixando o resto de nós preocupado com como vamos alimentar nossas famílias”.
Analistas já haviam considerado o fechamento da BioWare “totalmente previsível” para uma EA endividada, e um dos fundadores do estúdio, Greg Zeschuk, disse que a compra da empresa foi “o último prego no caixão”.